quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Arquétipo Primeiro
E sem que se movam Suas pálpebras
Esquadrinha, em Seus olhares,
O meu pobre espírito.
Congela-me as mãos
E sem que se movam Seus lábios
Estremece, em Seus sussurros,
Os cômodos de minh'alma.
Adianta-se aos meus gritos
E sem que se inclinem Seus ouvidos
Ouve, em Sua doçura,
A aflição de meu silêncio.
Move-se no firmamento
E sem que se mova de Seu lugar
Permanece presente
Na passagem das horas.
(Jéfte Sinistro)
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Orange Dream
No etéreo espaço ao teu dispor,
Não pouparia os passos,
Para colher nos teus dias em pedaços,
Flores em lugar de teu despertador.
Seria a música urbana
A soar na noite de teus ouvidos,
Acordes de sentidos bifurcos
Nas manhãs de sol sustenido.
Seria a embriaguez da noite vasta
E os anseios mudos da lua impávida
Cheia do brilho sonoro
De teus olhos nanquim.
Seria assim o tom difuso
Nos cantos de teu laranja crepúsculo
Num sonhado e dedilhado opúsculo
Em devaneios dedicado a ti.
(Jéfte Sinistro)
domingo, 3 de janeiro de 2010
Sou ainda menino
Sou ainda menino, de medos e de incertezas. A chorar convulsivamente, a procurar um colo para adormecer seguro. Inexperiente diante da vida, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer. Não aprendi a ser sozinho nem a consolar. Não sei ainda me expressar nem me arrepender.
Trago ainda mãos macias e delicadas. Pouco mal praticaram e tão pouco se entregaram ao bem. Vejo o mundo com olhos que não perderam o brilho, com boca seca, sedenta pela justiça que consigo supor haver a ser feita. A vida não é justa: isso já aprendi.
De resto, continuo a brincar. Sozinho num mundo de adultos. Franzino. Sem tamanho. Menino invisível.
(Rodrigo Ribeiro)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Estrela solitária
Solitária no teto longe
Lançou luz alva do céu distante
Ao menino que não mais se esconde
Pavimentou com seu olhar
Caminho de sonhos iluminados
Sorriu
(R.R.)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Minhas memórias de Caruaru
Contudo nunca uma lembrança
Daquelas serras de lá.
Em cada banda de terra as andanças
E a cada andança o compasso
Duma banda de pife a tocar
Santa terra que aprecio em verdade
Do agreste dama e majestade
Relembra num sol poente a saudade
Do ser tão (o) que não vivi.
De lá em glória céus e terra
A quem não falta louvor
Por nada se desvanece
Senão por um grande amor.
(Jéfte Sinistro)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Promessa de um Alvorecer
Unidas entre preces
E divagações distintas,
Encontram-se perdidas
Seladas num sentimento sem par.
Equilibradas sob o tempo
Que banha os lábios longíquos,
Esperam a pronúncia secreta
Que denuncia mistérios
De um desmedido olhar.
Bailando no manto da noite,
Tecido que une o brilho
De dois nobres corações,
São pobres majestades que resguardam
Promessas de um (in)certo por vir...
- Dedicado à querida daminha Fernanda (Didi) e ao alvorecer de seu sonho em breve real... Torço por esta história!
(Jéfte Sinistro)
domingo, 22 de novembro de 2009
Céu teu
entrego-me aos burburinhos celestes
que descrevem, entre preces,
retalhos brilhantes de teu nome.
Sonetos de horas vãs noturnas
pairam dispersos entre as urnas
dos segredos entregues a Deus.
Desarmado, entregue às nuvens,
somos então, a noite e eu,
uma única palavra escura, encantada
mergulhada nos tons de lua
de teu divino olhar...
- CyVeloso.
(Jéfte Sinistro)
domingo, 1 de novembro de 2009
Contém poraneidade
publi(cidade) única
dona de nós.
(Jéfte Sinistro)
A história: Passava das 13h., saíra da Universidade e sequer havia almoçado - ou consumido qualquer porcaria na rua que substituísse esta santa refeição -. Fila das Lojas Americanas. O produto a ser comprado: um pendrive de 4GB para o amigo Pessoa de Melo. Desfilando entre o silêncio e a balbúrdia, a reflexão: tantas pessoas, uma fila única, e em cada mente, um mundo, em cada lente, múltiplas possibilidades... Três versos, nada mais. Logo mais segue-se o dia, a correria, e, ah, o imprevisto do adoecer da filha de meu entrevistado, tocador de pífano. Entrevista remarcada. Pesquisa reorganizada. Melhoras para a garota!
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Estrela
Respiro. Tento esquecer. Volto a lembrar. Meu peito pesa. Finalmente adormeço, mas no outro dia tu voltas. Repete-se o ciclo de emoções. Tu voltas, sempre e sempre. Como um paradoxo. Num instante trazes-me paz e logo em seguida um conflito.
Perseguir teu olhar faz tudo valer a pena. Pra lá e pra cá. Para cima. Já estou sorrindo... só de lembrar desses olhinhos que brincam tão pueris como numa ciranda graciosa. Teus olhos! Outro mistério para mim. Não sei como eles me veem. Por um minuto, quando se encontram com os meus, parece que se desejam. Parece que acham graça em esconder-se dos meus e que se deleitam quando são encontrados. É o que parece. É o que eu quero que pareça.
Sinto-me preso. Preso a algo indefinível. Ou melhor, sinto como se quisesse ser preso. É a liberdade que me incomoda. A liberdade de poder me voltar e partir também, como tu partes. Simplesmente não consigo. É difícil abandonar a promessa de felicidade que vislumbro em teu adorável sorriso.
E tuas mãos! Brancas como num poema. Desejei que me acariciassem como a um bebê. Quis aconchegar-me em teu colo, sentir-me protegido da fria solidão. Tuas mãos significaram tantas coisas para mim. Mãos de amante, mãos de amiga, mãos de irmã... procurei em ti tudo isso. Nunca me afagaram. Deixaram-me na dúvida, sem saber que mãos eram essas. Esperava que, naquele dia, com um gesto, desfizesses as nuvens que encobrem minha visão. Ainda espero. Ainda me confundo.
Confundo o que sinto, confundo o que vejo. Porque imagino, idealizo, fantasio, não enxergo. És real e ao mesmo tempo apenas a lembrança de um sonho. Uma imagem preconcebida. Um estereótipo, visível, intocável... no céu de meus anseios, a sorrir e a brilhar; a encantar e iludir... como sempre te vi... uma Estrela.
(Rodrigo Ribeiro)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Rompendo paradigmas: repensando preconceitos sociais na defesa da identidade lingüística brasileira
“Preconceito lingüístico: o que é, como se faz”. Já o nome traz à tona uma reflexão sobre uma realidade vivida, muitas vezes inconscientemente, no cotidiano do povo brasileiro. Não à toa é a obra mais conhecida, já em sua 51ª edição, lançada pelas Edições Loyola, do professor do Instituto de Letras da UnB, Doutor pela USP, escritor conhecido e premiado nacionalmente, lingüista e tradutor, Marcos Bagno. Trata-se de uma obra voltada à defesa do estudo da lingüística nas práticas cotidianas e à revisão de paradigmas sociais voltados à língua, rompendo com a visão elitista desta e enfatizando métodos práticos que favorecem a democratização dos usos da linguagem.
Logo de início, ao apresentar sua obra, o autor fornece uma breve reflexão sobre tema, trabalhando, inclusive, o preconceito dirigido aos indivíduos ao se impor uma maneira “certa” de falar e as falhas na terminologia comumente utilizada, que deixa margem a interpretações ambíguas, como o uso do termo “norma culta”, que pode ser utilizado tanto para determinar a norma padrão idealizada quanto para definir a maneira como realmente fala a “classe culta”, urbana, socioeconomicamente favorecida.
Tendo introduzido o leitor ao assunto, são "servidos" oito mitos – oito máximas – comumente utilizados e largamente difundidos, em especial pela mídia e pelos defensores de uma gramática normativa morta e conservadora, em nosso convívio social, como o clássico “português é muito difícil”. Tais mitos dizem respeito à confusão entre língua e gramática normativa, ao conservadorismo por parte de alguns gramáticos, ao desuso da norma padrão e à discriminação geográfica, histórica e social, além da oralidade e a própria autodiscriminação.
É essa mitologia que dá base a todo o livro. Refutando, fundamentado em sólidos argumentos sociológicos e lingüísticos, afirmações – às vezes claramente preconceituosas e separatistas – de gramáticos conservadores de renome, que segundo ele alimentam “comandos paragramaticais”, atuantes no “círculo vicioso do preconceito lingüístico”, o autor deixa claras as lacunas deixadas pelos métodos da gramática tradicional.
O círculo vicioso do preconceito lingüístico se dá numa relação tríplice: a gramática tradicional inspira as práticas tradicionais de ensino que alimentam o mercado dos livros didáticos, estes que, por sua vez, baseiam sua estrutura na gramática tradicional, fechando assim o círculo vicioso. Tal fenômeno demonstra-se claramente através da crise no ensino da língua portuguesa no Brasil, uma vez que de tal modo ensina-se nas escolas uma norma padrão obsoleta como verdade absoluta, desprezando-se as demais variedades lingüísticas, resultando num padrão punitivo de ensino que acaba por restringir a livre expressão do aluno, além de intimidá-lo, desmotivando-o e despertando um sentimento de incapacidade.
Diante de tais situações, Bagno motiva o espírito pesquisador do professor sugerindo uma apresentação das variedades da língua ao aluno, instruindo-o à produção das mais diversas formas preocupando-se, a priori, com o desenvolvimento do conteúdo, demonstrando, no evoluir deste processo, a aplicabilidade de cada variedade, incluindo a norma padrão, e desconstruindo o conceito de “erro” e de relação de superioridade entre as variedades lingüísticas, introduzindo, em detrimento deste conceito, uma noção de aplicabilidade, de adaptação às situações.
No contexto “extraclasse”, Marcos Bagno traz duas interessantes questões para o debate. Primeiro, a questão da conscientização e do papel da mídia nesta tarefa, salientando o reforço contrário que, infelizmente, os veículos de comunicação têm dado ao reforçarem teses de gramáticos conservadores e ao ignorarem os lingüistas, que são os cientistas de domínio deste campo de estudo. E, segundo, o importante reforço da afirmação da identidade da língua portuguesa brasileira, salientando as particularidades da língua que falamos, embora seja questionável o desejo romântico de dissociar por completo nosso idioma do de Portugal.
De tal maneira, combatendo os preconceitos, em especial sociais, e a desvalorização do povo brasileiro como país independente implícitos na discriminação das variedades lingüísticas, o autor defende uma democratização e reforço da identidade plural da língua portuguesa brasileira e respeito pelos que a tem como língua mãe, de maneira clara, simples, objetiva e bem fundamentada, fazendo de sua obra uma recomendação não só aos que se debruçam sobre o estudo da língua e do ensino, mas a todos os brasileiros que apreciam a língua de seu país.
(BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 51.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2009.)
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
O Reino
Ainda tão jovens e cheios de Sol
Atônitos, olhamos ao redor
Como navios desejando um Farol
Assombrados, procuramos proteção
Não havia nada, estrelas, nem luar
E todo aquele esforço foi em vão
Pois a Noite estava em todo lugar
Densas Trevas cobriram nosso ser
Aflitos, pensamos no Arrebol
Se um novo Dia viesse a nascer
Temeríamos para sempre o pôr-do-Sol
Extenuados, sem saber aonde ir
Deitamos com a alma fatigada
Uma estranha Paz nos fez dormir
E enquanto sonhávamos veio a Alvorada
Já sem medo, vimos brilhar a doce Luz
Que de tão intensa era palpável
O fulgor supremo gerado pela Cruz
Raiou em nós a Aurora infindável
(R.R.)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Paixão
Entrou na sala determinado. Era uma das raras vezes em que se determinava a fazer algo. Deixou que a conversa com a professora divagasse e girasse em torno de assuntos corriqueiros e alheios à ciência de que compartilhavam, quando de repente disparou:
- Você me acha muito jovem?
Sem entender o porquê da pergunta, a professora disse que isso dependia:
- Nem sei quantos anos você tem! 20... 21? Você é jovem, claro. Mas por que pergunta?
- 20. Você se envolveria com alguém da minha idade?
Mais confusa ainda e, agora, um pouco embaraçada, ela gaguejou:
- Eu não sei! Eu sou casada, quer dizer... do que você está falando?
- Esqueça as circunstâncias. Considere a pergunta assim mesmo como foi feita, fora de qualquer contexto, e apenas responda se se envolveria ou não.
- Bem... acho que sim. Quando duas pessoas se amam, a idade não tem importância, não é? E a diferença não é muita, são apenas 10 anos. Mas, por quê? Você gosta de alguém mais velha que você?
- Eu gosto de você, professora.
II
Sempre vivera como um rato. Despercebido, evitado, escondido. Movimentava-se sorrateiramente para que ninguém o visse. Ele apenas existia e, assim como os ratos, não tinha culpa disso. Se era indesejado, não o era por vontade própria, embora não se importasse. Mas um dia descobriu que queria ser desejado, não por todos, mas por uma só pessoa que fosse. Queria experimentar a emoção de se sentir bem-vindo, bem-amado. Queria alguém que lesse seus poemas, que ouvisse suas canções, alguém que não se importasse com seu modo de ver a vida – como um rato.
A vida, para ele, nada mais era do que um beco sujo que, mesmo ele, sendo rato, não suportava devido ao mau-cheiro. Era um beco habitado por gatos maus que o espreitavam desejando devorá-lo. Gatos bem alimentados, que não precisavam de sua carne magra e parca de nutritivos, mas ainda assim o perseguiam.
No entanto, não era uma outra rata que ele queria. Uma rata não conseguiria entender os seus anseios, não conseguiria suportar viver ao lado de alguém que se conformava com sua condição de miséria espiritual e que, passivo, apenas aguardava o fim. O fim dos gatos, do mau-cheiro. Não importava de que forma o fim chegaria, pacientemente ele esperava.
Enquanto não chegava o fim, ele sentia que precisava de alguém; podia viver mais um ou dois anos... ou mais quarenta, cinquenta – o que, segundo as estatísticas, era o mais provável. Gostava de verdade da sua professora. Achava-a bonita, e ela o fazia se sentir seguro e até pensar que era importante para alguém. Não achava as aulas boas, mas ia mesmo assim, só para vê-la.
Ela não media mais que um metro e setenta. Era magra, tinha olhos muito pretos e vivos, que nunca perdiam o brilho e contrastavam com a palidez melancólica do rosto. O sonho dele era vê-los brilhar para sempre. Queria ver aqueles olhinhos antes de dormir e, quando se levantasse, queria beijá-los enquanto ainda estivessem fechados, para que os visse se abrindo, brilhando novamente, como duas pérolas, como dois raios luminosos quebrando a escuridão dos seus dias.
Outro aspecto que o agradava na professora era o sorriso. Era largo, quase desproporcional ao rosto miúdo. Ah, como ele gostava daquele sorriso, despretensioso e pueril.
Ele sabia que ela nunca o veria com os mesmos olhos que ele a via. Ainda assim, sonhava. Sempre foi conformado, porque mesmo não sendo possuidor de nada, a esperança de que um dia poderia chegar a ter alguma coisa contentava-lhe com um sabor quase doce.
E ele sonhava! Sim. Noites a fio. Não chegava a sonhar que se amavam um ao outro, mas ela estava lá, e era o suficiente para lhe alimentar a esperança pela manhã e lhe dar um dia menos amargo. Pena que era só esperança. Um tipo diferente de esperança, que confortava, ainda que não prometesse.
III
Foi numa manhã comum, depois de acordar de um sonho com a professora, que ele se decidiu. Sabia que sentia por ela algo diferente, que não sabia explicar. Podia ser amor, porém não tinha como garantir, já que nunca havia amado. Não desse jeito que logo vem à mente quando se fala
Havia alguns meses, aquelas ideias descabidas tinham começado a perturbá-lo. Ideias de felicidade! Onde já se viu? Estava sem coragem de tentar. E se conseguisse ser feliz? Como ia lidar com aquilo se desse certo? A felicidade o assustava. Definitivamente, era um conceito aterrador para alguém que estava tão acostumado a viver sem precisar dela. De onde viera tamanho disparate? Sabia muito bem como ser infeliz, como ser reprimido e resignado, mas ser feliz estava além de sua capacidade.
Naquele dia foi para o trabalho pensativo. O escritório onde operava uma fotocopiadora era perto, e nem teve tempo de terminar o raciocínio. Melhor assim. Durante o dia esqueceu. Lembrou-se à tardinha. Tinha aula com a professora e chegaria mais cedo para ter a conversa decisiva. Seria sua primeira tentativa de ser feliz. Se não desse certo, esqueceria essa bobagem e fingiria nunca ter se arriscado; guardaria apenas a lição. Sim, seria uma lição para ele, para não se meter a pensar
IV
Chegou em casa e foi imediatamente para o chuveiro. Precisava fazer tudo rápido para chegar cedo à universidade. Não ligava muito para a aparência, mas se barbeou. A roupa não tinha importância, e nem ele queria tornar o ato mais patético escolhendo sua melhor camisa. Tomou uma xícara de café. Não sentia fome, estava um pouco ansioso, e isso lhe tirava o apetite.
“Seis e quarenta. É bem cedo”, pensou. A universidade ficava a poucas quadras de onde morava. Sentiu vontade de comprar um cigarro no caminho, avulso que fosse. Não fumava, mas a ansiedade que sentia era mais do que ele podia suportar, nunca havia experimentado tanto excitamento.
Quando levantou naquela manhã, após ter sonhado outra vez com a professora, sabia que precisava fazer alguma coisa. Estava começando a achar que não havia mais necessidade de conter seus ímpetos e renegar a tudo quanto desejasse. Sentia-se um covarde por fazer morrer qualquer tipo de expectativa que lhe vislumbrasse um pouco de felicidade.
Vivia por obrigação. Era um desses que nunca sabia o que fazer, porque entre escolher isso ou aquilo preferia isentar-se desse difícil e inútil ato. Não era preciso escolher! Os fins justificassem os meios ou não, tudo sempre terminaria na mesma, pensava. Achava tudo inútil e sem importância, e estava certo de que qualquer tentativa de mudar sua sorte seria um ato ingenuamente irracional, como o de alguém que segue as previsões astrológicas de seu signo.
Mas isso estava mudando. Era o que ele esperava, pelo menos. Queria mudar, embora não tivesse forças. Queria fazer algo de bom para si, no entanto sempre desistia quando começava a imaginar as inúmeras consequências de sair da sua condição passiva e resignada. Mas isso estava mudando... sim!
Era alguém que falava apenas o necessário. Na verdade, para ele, palavra nenhuma era necessária, mas se todos faziam questão de conversar, algumas vezes ele falava. Quando precisava dizer algo, perguntar alguma coisa, imaginava antes em sua cabeça como seria o diálogo. Escolhia quais palavras pronunciar, que tom de voz usar. Criava e recriava situações em sua mente. Mas naquela noite não seria assim. Ia expressar, talvez, sua mais profunda declaração de subjetividade diante da professora. Poderia ser aquele o momento mais importante de sua vida. Dessa vez não ia tentar criar o diálogo em sua mente; deixaria que tudo saísse de maneira espontânea, conforme lhe ocorresse.
V
- Como assim, gosta de mim? Perguntou a professora, atônita.
VI
“Como assim?”... Foi isso o que ela disse. Ela não o apertou contra o peito, nem fez juras de largar tudo para fugirem juntos, como desejava que ela fizesse. “Como assim?”... Foi tudo o que ela disse.
Ele nunca ficou sabendo, mas naquela noite havia tocado o coração da professora. Ela também sonhava com uma proposta que mudasse sua vida, mas aquele aluno não era exatamente o que esperava. Então, naquela noite, deitada ao lado do marido, ela chorou baixinho durante alguns minutos.
Ele, por sua vez, nunca mais tocou no assunto. Passou a ser arredio no tratamento com a professora, e a relação dos dois passou a ser simplesmente formal. Ficou cada vez mais distante. Cada vez mais conformado.
Naquela noite, enquanto a professora chorava baixinho, ele fumava os cigarros na janela do quarto e soluçava. Um dia Guimarães e Graciliano morreriam, e ele ficaria sozinho. Com o sentimento de que não vale a pena tentar amar. Não quando não se tem nada a oferecer.
(Rodrigo Ribeiro)
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Paciência
Foi bom apenas sentar e ficar esperando
Com a cabeça sobre os joelhos e o olhar fixo na estrada
Descansando, pensando em nada
Quando eu não soube o que dizer
Foi bom apenas calar e ficar escutando
Com a mão sob o queixo e os olhos fechados
Meditando, sendo ensinado
Quando eu tive medo e vergonha
Foi bom apenas deitar e adormecer
O peito arfando e os olhos umedecidos
Sonhando; escondido
Quando fiquei sozinho, sem apoio
Bastou permanecer acreditando
Tua promessa em mim e meus olhos para o alto
Esperançosos, Te enxergando
(R.R)
domingo, 19 de julho de 2009
Sorriso Instante
As meninas virgens da alma
E retratam num acordo oco e mudo
O mundo branco
Beijado em brilho úmido
De tua cidadela sorridente
Donzela abstrata e muda
Di[st]ante de minhas impressões digitais
Impressiona-me em tua expressão de estranheza
Expressa nos portões de tua beleza
À beira do cais de meus olhos surdos
Onde aportam sonhos piratas
E descansam sonhos minguados
Entre os grandes campos desse mar...
Nada mais que tudo
Sobre as ondas as velas hasteadas
E no tempo ou espaço dos rastros
Um pouco de ti
Um pouco de mim
E um pouco de nada
Porque tudo passa
E quero eterno o teu sorriso.
Grato, Fernanda anônima, pela alma cedida a este poema.
(Jéfte Sinistro)
domingo, 5 de julho de 2009
Cameleônico Casulo
Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.
Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.
Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?
Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.
A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.
Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.
Seria uma revelação?
O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.
Seria movediço?
Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.
Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.
Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.
Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.
E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.
Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...
Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.
O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.
Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...
Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...
Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...
(RaiBlue & Jéfte Sinistro)








