O Teatro Mágico - Xanéu Nº 05

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Homens-Ilhas

A ilha existe, sim. Dela, no entanto, é possível ver as luzes da cidade em noites sombrias, quando a consoladora bruma é dissipada pela lembrança de todos os barcos que partem do cais. A simples ideia de ser descoberto é uma ameaça aterradora para o habitante que lá se isola.
Minha história começa bem antes de eu nascer, confunde-se com as origens do mundo, começa com as primeiras manifestações do instinto assassino do ser humano. Minha história começa a ser forjada não pelo medo, mas pela ameaça. Todos os sentimentos de culpa, inferioridade, todos os complexos e terrores da sociedade surgiram como filhos bastardos de um pai chamado orgulho. Dele sou uma cria. Enxotada, fugitiva, que se ressente da luz do sol, pois de louca, pensa que é ele – o sol – o gerador da opressão. Não. Esta cria não sabe que o sol apenas denuncia a desgraça. Não deixa, todavia, de ser culpado por isso: a tirania da luz, que a todos obriga a ver.
Foi o que me trouxe à ilha: o medo de ver, o desejo de que todos os meus dias fossem noites, e minhas noites, eternamente calmas. Na ilha, aliás, não se conta o tempo. Este é outro déspota insensível. Sua marcha inexorável pisoteia os sonhos, enterra as utopias. O tempo é a ilusão do desesperado.
Mas o que sou eu senão minha própria ilusão! O que sou, nesta ilha, senão minha esquizofrenia fingida, meu sorriso amarelo... A bruma que me envolve, obscurece minha visão, me inebria, apenas provoca uma falsa e momentânea impressão de ser o único ser criado, de ser o deus da própria existência, o salvador de si, salvando-se de si...
Afinal, ilusão ou não, os barcos continuam partindo, o sol nascendo e o tempo passando para mim, por cima de mim, esmagando-me. Um dia vão me achar, um dia vou me achar, saber que sou eu e que não há nada a ser feito senão dançar a desoladora valsa da corrupção. Sem máscaras nesse baile, seremos obrigados a encarar nossas horrendas fisionomias, distorcidas, desfiguradas, como verdadeiras esculturas... Quanto a mim, serei obrigado e ver novamente no espelho a face que nunca deixei de ter, nunca deixarei, a face que nunca me deixará, aprisionando-me à minha essência, feito Cérbero às portas do Hades.


(Rodrigo Ribeiro)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Oração dos vitoriosos

Deus, obrigado pelos perdedores. Afinal, sem eles, não poderia haver os vencedores. Se todos vencessem, o conceito de vitória nem existiria, e de que jeito nós nos regozijaríamos? Os perdedores, mesmo não conquistando nada em suas vidas fracassadas, desempenham esse importante papel de fazer nosso ego inflar! Tu sabes que não somos capazes de medir nosso sucesso somente pelas nossas vitórias, mas, sobretudo, pelas memoráveis derrotas de nossos irmãos.
É bom que exista o pobre, assim nossa prosperidade sempre saltará aos olhos. Que dizer dos amargurados? Sem o pano de fundo opaco pintado por seu semblante, nosso sorriso não brilharia tanto! Obrigado pelos indecisos e errantes, que tornam tão astuta a convicção de nossas escolhas acertadas. Agradecemos pelas famílias desestruturadas e pelos romances desfeitos, que coroam de glória as nossas relações perfeitas e saudáveis. Agradecemos pelos hereges e pecadores, são eles que nos revestem deste halo de santidade.
Deus, obrigado pelos desvalidos, inválidos, pelos ridículos, pelas crianças abandonadas, pelos famintos, pelos frustrados, desamparados, pelos solitários, pelos excluídos, sim, os que ficam de fora, obrigado por todos aqueles seres humanos infelizes que não fazem parte de nosso círculo de vitoriosos, e que lançam intensa luz sobre nosso triunfo. Deus, obrigado pelos fracassados!


(Rodrigo Ribeiro [alguém que faz a felicidade dos vitoriosos ser mais feliz!])

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

De que adianta?

De que adianta suspirar?
E sonhar, de que adianta?
Se suspirando fossem sopradas, banidas para fora de ti as tuas mágoas...
Se sonhando fossem materializadas as paisagens que dentro de tua cabeça pintas...
E sofrer, de que adianta? Não é o sofrimento efeito forjado por aquilo que são apenas pesadelos e que não poderiam te tocar? Sofres porque é essa a tua escolha. Ou então é a tua sina confundir as horas de vigília com as de sono, e choras sem necessidade, sem discernir se choras por ser magoado ou simplesmente porque teu pesadelo é saber que estás acordado.


(Rodrigo Ribeiro)

domingo, 30 de outubro de 2011

No mar

E se eu não estivesse aqui? Simplesmente não estivesse aqui, não estivesse em mim... estivesse no mar. Se eu habitasse as conchas e fosse um grão de areia. Sim, se eu pudesse me espreguiçar como uma onda que desde a vastidão do oceano se estende até a praia até desaparecer e se tornar parte de algo que já nem existe mais... Ah, se eu fosse essa onda, se eu fosse simplesmente a espuma branca da onda que se funde com a areia. Se eu fosse, então, uma alga transportada pelo mar e jogada ao sol para ali descansar, quem sabe me enrolar nalguma pedra e ser parte da pedra. Se eu fosse uma grande e solitária rocha, todos os dias banhada pela água fria do meu mar, aquecida em seguida pela cor alegre do bondoso sol. Só não queria ser a lua, que, linda, de longe, é obrigada a contemplar o mar, ter sempre a falsa impressão de estar lá, mas saber que sua mansa luz é apenas a projeção de sua triste ilusão.


(Rodrigo Ribeiro)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Espera

Sempre à espera, desde o dia em que nasceu. Esperou para ser alimentado e, depois que cresceu, esperou fazer a digestão. Esperou a chuva passar, o sol baixar, esperou a noite chegar, o dia amanhecer. E continua esperando. Esperou sentado, saiu para esperar, esperou para sair e permanece assim. Olhando para o relógio, ouvindo o tique-taque, brigando com os ponteiros, trocando as pilhas para não perder a hora... a hora de saber que ainda não é hora.
“Espera mais um pouco”. Acalma-se, entedia-se, enraivece-se e tenta se acalmar. Acalma-se... espera. Espera, espera, espera, espera. Levanta, sai, se revolta e não adianta. Desiste, se arrepende. Volta, senta... e espera.


(Rodrigo Ribeiro)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Espelho

Acho que é disso que as pessoas têm medo quando ficam sozinhas. É desse ficar-se consigo mesmo. Dessa embaraçosa companhia com a qual nunca nos acostumamos: a nossa própria. O medo de saber-se desconhecido... às vezes perigoso, indecente. Por isso procuramos desesperadamente estar com alguém, não importa quem, que nos livre de nossa indesejada presença.
É duro saber que não há mais ninguém por perto além de si. Tememos o silêncio. Mais do que isso, tememos quebrá-lo e ouvir o que temos a dizer a nós mesmos, sobre nós mesmos. O silêncio incômodo entre dois estranhos na sala não é tão insuportável quanto esse.
Cada um é, para si, a pessoa mais desconhecida do mundo, a mais misteriosa, que está sempre a surpreender(se), a enganar(se), a esconder(se). Rotulamos e fazemos juízo de quem quer que seja, mas ninguém se atreve a julgar a si mesmo, afinal, como definir alguém a quem se vê tanto e se sabe tão pouco?
Como consolar-se depois de ouvir o próprio grito? Como encarar a imagem no espelho cada vez menos familiar, mais ameaçadora? Para onde ir se não é possível fugir de si?


(Rodrigo Ribeiro)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Vento

Outra vez ele volta. Ele sempre volta
Envolto em devaneios, divagações, dúvidas
Devorado pela vileza de suas queixas

Sim, ele vem. Todo dia vem
Ao mesmo lugar vil
Vasculha em vão suas poucas convicções
Que não o levam a nada senão ao velho vazio

Ele vem. Vorazmente tentando
agarrar-se a qualquer verdade
Mas abraça somente o dúbio vento
E suas certezas viram plumas que velozmente voam
E pousam sobre qualquer valor para, na próxima corrente de ar,
levantarem voo novamente e em outras variantes pousar
Nunca repousando

Nesse vaivém da vida o que se vê são apenas vultos
E o que se ouve, o vozerio de uma multidão convulsa
Sem repostas

Não há lenitivo para aliviar a dor
Nem vontade que seja capaz de transcender a vergonha
As tentativas invariavelmente fracassam
Enquanto a única recompensa é ver que o vexame é coletivo

Assim, cada vez que ele vai e volta
Num vórtice vertiginoso que lhe rouba a calma
Pensa que seria suficiente saber apenas uma coisa
Vale a pena?


(Rodrigo Ribeiro)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Não quero nada

Hoje é um daqueles dias, doutor. Dia daqueles. Dia normal, que já foi incomum, mas não é mais, de tão repetido. Um desses em que se sente a mesma coisa de sempre parecendo novidade. Dia cheio de nadas. Nadas enfadonhos como todo nada é. Nadas cheios de tudo o que não se tem. Um nada tão vazio que perturba. Um vazio tão concreto que assusta. Nada pior que o nada. Um nada pior que o outro. Nada novo. Novidade mesmo não existe. Novidade é o estranho pensar que um dia o nada acaba... (nada acaba).
Acaba, nada!
Acaba nada...
Pois não, doutor... se tem alguma coisa errada? Tem, sim. Tem nada. Nada demais! Muito nada pra tanto espaço... tanto lugar sem ter o que pôr. E sem poder tirar nada. Sem poder tirar esse nada que é tudo o que tenho e tudo o que não quero. Não quero mais nada, não aguento mais nada! Mas também não quero tudo... só quero um qualquer. Qualquer amor, qualquer valor, qualquer qualquer. Uns qualqueres que fossem meus, bem diferentes... Diferentes de nada. Iguais a mim, que não sou nada, não sou ninguém! Sou assim, um qualquer...


(Rodrigo Ribeiro)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Tempo

Memórias e a saudade. Tudo lembra aquele tempo. O tempo em que não se tinha o que lembrar, pois as lembranças não eram mais valiosas do que era o presente. Passado, agora. Passado pouco tempo, mas difícil acreditar que existiu.

Por que será? Por que essa rejeição ao presente? Seja de grego, seja imperfeito, que seja! Mas que não seja um dia esquecido. Que seja lembrado amanhã, com a mesma alegria que hoje se lembra de ontem. Sonha... Ah, sim! Sonhar! Melhor, buscar estados de semiconsciência em que a realidade se misture à lembrança daquele cheiro, daquele gosto, daquele som, que quase se concretizam... Difícil viver assim. Só lembrando e esperando, nunca vivendo. Vendo a vida voar, escapar por entre os dedos como água do mar. Sobram os grãos de areia, secos, iguais, inúteis. Difícil.

(R.R.)

sábado, 26 de março de 2011

Café

Não sabia bem o que querer. Tudo o que sentia àquela altura da noite era o chacoalhar de sentimentos convulsos em seu peito compacto. Meia-luz num terraço pequeno, em “L”, à beira-mar. A canção das ondas misturava-se às canções do seu disco preferido do Jards Macalé, e o cheiro da maresia bailava com o perfume de seu café ainda quente.

“Gosto de café, é disto que a vida precisa”, divagava sentada em uma almofada disposta em um dos cantos do terraço, na companhia de uma mesinha simpática de bambu envernizado. Entre um gole e outro, perdia-se nas trilhas daquele sereno céu sem lua.

“E também cor de café. Sim, cor de café torrado”, pensava pouco antes de se levantar e seguir na direção da cozinha. Pôs sobre a mesa um envelope de café em pó, e sobre o fogão uma panela de aço inox cheia até a metade com água do filtro. Acendeu um fósforo, olhou alguns segundos para a chama, e finalmente acendeu o fogo em uma das “bocas”.

Com um olhar inquieto seguiu até a sala, ligou o repeat na faixa 5 do disco e voltou ao seu posto no terraço. “E esse jeitinho de quero mais”, sussurrou levantando um tanto a sobrancelha direita, antes de dar o último gole no copo que restava sobre a mesinha.

Fechou os olhos e decidiu sentir a música - do Jards e do mar. Seu coração funcionava em pulsos ofegantes, e poderia jurar que o ouvia resmungar qualquer bobagem. “Café. Não mais que isso é a vida. E deveríamos, nós todos, viver mais disto - desse cheiro atraente que contemos, desse calor suave que negamos, desse gosto forte que fingimos esquecer…”

Neste momento despertou de seu quase-sonho com o estalo da panela já seca, de tanto tempo ao fogo. Correu para a cozinha, desligou o fogão, encheu novamente a panela e, entre risos frouxos, concluiu “e mais desse risco de evaporar antes mesmo de coar”.


(Jéfte Sinistro)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

R$12,50

Há três dias não almoça. Apenas bebe alguma coisa, um suco de laranja ou uma cerveja, na tentativa de digerir o fato. Ainda não consegue acreditar, e entender não é sua intenção.

Na sua cabeça tudo era tão claro; todos os gestos, todas as frases, todos os planos… e ainda ouve claramente as últimas palavras dela em sua última conversa - as mesmas últimas palavras dos últimos nove meses - “R$12,50, Eric. Obrigada!”.

Nove meses. Já era tempo de seu sentimento vir à luz, e estava decidido: seria naquele dia. “Seria…” - é o que agora ecoa de canto a canto de sua alma pequena, suficiente apenas para as banalidades de seu cotidiano.

Laila era linda, simpática, inteligente, e o seu sorriso cativara Eric desde a primeira vez em que fora almoçar no "Big Lanches", em uma segunda-feira de outubro, assim que mudou de trabalho.

Pouco mais de três semanas e Laila já respondia ao “boa tarde!” de Eric anexando a indagação: “o de sempre?”. O rosto pálido de Eric corava, e ele o meneava sorrindo, respondendo que sim.

Com o tempo Eric pensou em mudar o cardápio de suas tardes, no intervalo entre os turnos diante de um computador, mas teve receio de desapontar aqueles olhos profundos de noite sem lua, sempre à espera de seu sorriso para preparem o corriqueiro chop suey.

Agora não é mais tempo. Nem de mudar seu pedido, nem de oferecer a Laila o menu do sentimento sublime que há tanto alimentava por ela - e guardava para si.

Foi triste ter que ouvir, três dias atrás, que Laila já não trabalhava mais ali. Estava morta, vítima de um câncer que preferiu não tratar. Mas a vida é assim; tudo logo passa, e nem sempre o menu nos agrada. Não importa. De um jeito ou de outro, a conta sempre vem.

O que realmente incomoda Eric agora é a falta de apetite. E a necessidade de buscar algo novo para lhe suprir a fome. (Esquece-se, contudo, de que talvez possa agora pedir algo que não chop suey, sem o peso do descontentamento do que nunca existiu…)


(Jéfte Sinistro)

sábado, 11 de dezembro de 2010

O que vem depois

Vê o que te resta neste peito mudo
E exclama a todo o mundo
Que é que tanto te retira a paz

Revela esse tanto de absurdo
Que te apaga a luz de tudo
E te enlaça se apertando em nós

Não estás só, meu camarada,
É de todos essa jornada
De se encontrar e estar em par

Tanto faz o que vem depois
Se é de agora que se faz o viver
Não adianta olhar lá fora
Querendo ver o mesmo dia nascer...

Originalmente uma canção, já com algum tempo de vida.
- Créditos do título: Pessoa de Melo

(Jéfte Sinistro)

domingo, 28 de novembro de 2010

Encantos e aleatoriedades

"Diz-me, moça de semblante terno,
O que se esconde por detrás desses teus lábios risonhos
E desperta brilho nesses teus olhos nus?"
[18/11/2010]
- RTJ
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"Quando um sorriso pueril
Se diz por todas as falas
É sinal de que o um
Já se fez em plural"
[09/11/2010]

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"Nos olhos - que morreriam de infarto, se tivessem coração -, apenas suspiros de encanto, enquanto da boca as palavras se perdiam."
[09/11/2010]

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"E se me falta à boca palavras,
É que me roubaram todas o teu sorrir."
[09/11/2010]

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"É só o tempo o que nos falta às palavras
Que ancoram na garganta seca,
Quando o suspiro tolo de meu peito
Se afoga ao porto terno de teus olhos."
[12/11/2010]

- À que, nos últimos dias, me tem inundado com a doçura de su'alma, impressa (e expressa) em seu sorrir.

(Jéfte Sinistro)

Silêncio uníssono

De todas as coisas que não se pode ver
É o silêncio do canto uníssono,
Sem dúvidas, a mais bela.

É como segredo que se revela
Sob a luz de uma vela
Acesa no breu do pensar

É canto de um encanto indefinido,
Colorido retumbar de um suspiro
Que se perde a dançar

É ciranda à volta de um sorriso
Implantado nas alfaias
Que convidam o baque a virar

(e se não virar que siga solto
nesse baque ou num outro
o tambor tem que pulsar!)

- Ao maracatu Tambores D'Olorum

(Jéfte Sinistro)

Acordo

Façamos um acordo ortográfico:
Ensina-me os acentos de teu silêncio
Que transcrevo, no meu peito,
As palavras que me faltam
Nas reticências de teus olhos.

- À Isabela Lucy

(Jéfte Sinistro)