Fim de Feira - Estradas e Retirantes

Domingo, 5 de Julho de 2009

Cameleônico Casulo

Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsível.

Os desertos são assim: longos períodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.

Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilíbrio.

Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilíbrio?

Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.

A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.

Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.

Seria uma revelação?

O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinível em sua textura.

Seria movediço?

Do tédio do rígido previsível, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravíssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.

Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.

Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.

Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.

E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num líquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico líquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.

Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...

Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.

O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rígido e insensível. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.

Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...

Fora naquele escuro líquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...

Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...


(RaiBlue & Jéfte Sinistro)

Domingo, 21 de Junho de 2009

Sonho de uma noite de São João (ou Prélúdio de um Janeiro)

Sobre o crepúsculo rubro
deita-se a azul noite inquieta
desabrocha luas negras
diante do infindo verde (a)mar

Colho palavras na brisa
que acaricia meu rosto
e tatua em meu corpo
o cheiro da maresia

Fogos, estrelas, São João
o fogo caleidoscópico
acende as velas do desejo
de ter o veludo de teu corpo
sob o toque de minhas mãos

21 de Junho-Janeiros
xadrez colorido de sonhos
em rota de colisão

Explode no céu a vontade
nas cores de um balão
arde na terra o desejo
fogueira, puro veraneio
e corpos que bailam
no compasso de um baião

E mesmo que finde o dia
no peito pulsa rubra a alegria
de palavras celestes
no alvorecer do acolchoado uni(verso)
do presente e(terno)
Teu, Nós.


(Jéfte Sinistro)
Um pequeno presente azul à mais incrível "matutinha baiana" no dia reservado para festejar (com direito a xote, baião, fogueira e balão) o seu nascimento. Eita xamego bão! rs. Te amo...!

Sábado, 20 de Junho de 2009

Noite azul entre nuvens

E na noite derramada sobre a cidade
a música do sopro inquieto do vento
embala a dança de meus olhos
que buscam no teto do mundo
o azul das mãos dadas do céu e do mar

As palavras sussurradas em segredo
pintam sobre a tela do infinito
os caleidoscópicos minutos
de nosso azul eterno

Sob a chuva desenham-se as certezas
um despertar das cinzas
para o libertar das asas nuas

Os mistérios do que sinto

A parte em mim que é tua

E a verdade desabrochada
dos intensos mergulhos precedentes

Encontrando-me mais quando perdido
no infindo do que almejo
recordo o instante do encanto primeiro
e relampejo o azul celeste
no verde (a)mar de meu nós...


(Jéfte Sinistro)
À minha menina Azul...

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Animal Alado (BlueSinistro)

Algema-me as mãos. Imobiliza meus passos. Prende o meu pássaro em seu labirinto.

Quer me devorar, eu sei, eu sinto, ainda que o sentir seja, agora, apenas uma fresta. Vem serpenteando com seu veneno na ponta da língua, querendo arrancar-me a maçã das retinas. Desmata o meu Éden, seca o verde dos meus olhos e dos rios que me faziam correnteza. Tudo em nome do equilíbrio. Mas meu coração trapezista necessita do perigo de cair na rede. É a adrenalina que me lança aos céus de Santo Amaro. Habito a corda bamba do sentimento, porque o chão não me desafia. Do chão não passo, sem as minhas asas.

E agora, ela faz-me trocar minhas sandálias de couro, de andarilho, por suas botas maquiavélicas, impermeabilizando os caminhos. Endurece meus músculos a fim de quê eles não sintam mais o toque. Estou inseguro em sua segurança. Ela não me convence totalmente com seus argumentos. Travamos, então, a mais intensa batalha. Não há saída, nenhuma janela nem espelho. Sua esgrima é certeira no meu peito: ela quer arrancar o meu coração...

Em gestos hábeis ela encena passos não ensaiados sempre à minha frente. Entendo que não seja, então, uma batalha armada, mas uma dança... um baile onde mãos, olhos e falas ora convergem, ora divergem. O próximo passo é sempre uma dúvida, pra mim. Mas ela estende a mão num convite ao ritmo compassado dos pulsos... e eu seguro sua mão, ainda sem dar um passo.

Aprisiona-se num cinza por trás das cores, e oscila entre o azul e o rubro, dentro de nosso caleidoscópio. Cultivo uma flor em seu canteiro, mas é pouca a luz. Por isso lhe ofereço um canto novo, longe do edifício onde fez morada. Hesita em ceder...

Mudanças sempre abalaram sua estrutura. A pouca luz a mantém firme em seus propósitos, é seu escudo. Uma rosa poderia fragilizar suas convicções, pois o perfume seduz o juízo. Poderia ser um desvio para o seu equilíbrio. Ela me quer dançando em sua penumbra, quer-me entregue às suas mãos fortes, sem indagações. Será mesmo minha companheira ou inimiga? Esta pergunta era arterial, corria pelas veias, era o corpo oscilando diante do seu domínio. Eu não vou, inteiramente. E ela não destranca a porta para o mistério. Quer a clareza dentro do seu escuro. Mas a minha dúvida rodopia entre nossas mãos, e eu não saio do lugar. Estou no alto do seu edifício e não tenho pára-quedas para saltar. Saltar também exigiria uma entrega total: uma vez pulado, não poderia mais retornar.

Seus olhos são firmes, como se nunca tivessem ficado em cima do muro. Ao contrário dos meus, que, tão relativos, adoram mudar o ponto de vista: ora asfalto bruto, ora oceano sem fundo. Ela me contorna, com sua dança, sapateia em minhas dúvidas e me venda com suas certezas. Oferece-me um cálice da verdade dela. Será a mesma minha? O cheiro é tentador, mas ainda não bebo.

A velocidade dos questionamentos cresce inversamente proporcional à velocidade de nossa dança.

Em algum lugar de sua retina, deixava escapar detalhes fragmentados de dois pesos diferentes espalhados pelos contornos de seus olhos. De um lado, quedas d'água. Doutro, uma represa. O chiado de suas águas esconde uma razão que vem da nascente... das águas cristalinas que emanam de sua terra.

Eu sigo cuidadosamente o seu chiado, desbravando o vale de sua penumbra... um passo atrás e um pé de cada vez - como se aprendendo um novo passo de dança. Olhar para todos os lados se faz necessário. Mas, aqui, as árvores parecem se mover, dando a impressão de que nunca se passa duas vezes no mesmo local, e todos os animais salivam à minha presença.

Sou capaz de ouvir seus rugidos, tão intensamente, que se confundem com o grito do meu silêncio. O animal sou eu, preso em sua floresta, jaula cheia de promessas, porém o que ela deseja mesmo é domar o meu pássaro. Ela extinguiu a serpente do seu reino, mas esta atravessa minha medula e me traz a sanidade através do seu veneno, antídoto contra a monotonia do seu império de certezas.

Ela tem os dentes afiados, mas eu ainda tenho minhas asas... Quem devorará quem? Haveria uma possibilidade dela compreender que sou um animal alado? Poderia até dançar com ela, se me deixasse voar...

Enquanto escuto o chiado vindo do fundo de suas águas, ensaio passos de vôos para além de suas mãos...


(RaiBlue & Jéfte Sinistro)
Uma experiência ímpar... Retalhos caleidoscópicos da sintonia de nossas almas. É sempre um prazer imenso, Blue! Incrível, como só tu sabes ser... Palavras com o sabor de nosso afroruivotempero!

Um poema descartável

Hoje quis te escrever um poema
Mas não pude
Quis te abraçar e dizer o quanto te amo
Mas não pude

Hoje o dia foi difícil
Procurei-te por toda parte
Mas não te encontrei

Quis te convidar para dançar
Mas não estavas,
Não respondeste

Quis aprender tua canção favorita e cantar para ti
Quis celebrar nosso encontro
Mas não apareceste

Hoje o dia foi difícil
E eu não te encontrei
Hoje eu quis te ver
Mas não pude

(R.R)

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Prelúdio de um Presente

Pairo sobre o copo cheio
de palavras disformes
que repousa sobre a mesa
contemplando, no alto,
o negro túmulo estrelado

Debruço-me sobre os muros
do papel ainda intacto
e reviro versos móveis
nos cantinhos da alma
que se dispõe a colher flores
nos canteiros dos olhos

Decoro uma poltrona
no centro de minha sala
[de estar bem com a lua]
e perfumo o cômodo
com o perfume da retina inquieta
buscando no ar
um embrulho de mar

Sopro o tempo descontínuo
sobre as páginas da lembrança
e recorto as jóias dos instantes
para colorir o teu presente

Semeio uma palma de votos
sobre a terra fértil
do sentimento azul celeste
e respingo nuvens brancas
para que germine luz
no alvorecer dos caminhos

Tatuo na areia do pensar
pequenos detalhes imunes
às ondas da eternidade

Ensaio discursos descompassados
pescando no uivar do vento
melodias novas da antiga nova idade
para acompanhar o canto
de um repetido sincero
'eu te amo!'.

Um pequeno presente embrulhado com esmero para alguém especial no dia reservado à lembrança de seu nascimento. Eu te amo, AmorA!
(Jéfte Sinistro)

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Enchente

Um mar [in] de gente
Um mar de casas
Uma casa no mar.


(Jéfte Sinistro)

Domingo, 17 de Maio de 2009

Fé de mais do que se pensa

Reservo-me, hoje, o direito de não crer em ti
de não crer em nada do que cria outrora.
De não crer na falácia dos poetas mortos,
nem nas teorias lúcidas de filósofos decrépitos.
Reservo-me o direito de não crer em teus olhos
de não crer no rodopio de tuas palavras sensatas em demasia.
De não crer em nada do que sonho
nem nos passos calculados que almejo.
Reservo-me o direito de ser, hoje,
crente na descrença que me toma as veias
e de estender até onde bem quiser este Discurso Burocrático
enquanto A Missa não começa.
Reservo-me, hoje, o direito de ser tão hipócrita
Quanto tu és esguio
e de descrer em tudo o que me circunda
até que a fé sepulte o dia.


(Jéfte Sinistro)
Vomitando um Cara Estranho que dança num Discurso Burocrático esperando A Missa começar...
Reservando-me, hoje, o direito de não crer em nada. Nem em mim, nem em ti, leitor.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Lágrimas

Nunca entendi as lágrimas. Se acompanham a alegria então não são mais do que quimeras que surgem como um oásis na sequidão da vida, mas apenas como miragem que ilude os olhos e maltrata o espírito. Se acompanhassem as tristezas então não creio que um dia secariam os olhos de toda a gente que se pergunta por que existe.
Do que são feitas essas lágrimas se não de sonhos desfeitos que escorrem para fora da alma? Parecem ser apenas a matéria de nossas idealizações que se desmancham e se misturam com o suor que nos pinga de todos os esforços inúteis em busca do impossível.
Ou são essas águas provenientes de uma fonte que jorra de nosso interior para que não se acumulem as amarguras, apenas se renovem?
Desejaria que servissem para regar as esperanças murchas que se amontoam como num jardim plantado em terra infértil. Desejaria poder entender o que há dentro de cada gota que forma essa poça de desilusões e medo.
Por que não são como o orvalho, que traz vida e faz brilhar paisagens de encanto sob as auroras promissoras? De que agustioso manancial correm e com que propósito nos fazem soluçar levando o pouco de força que ainda nos resta?
Se são expressão de prazer por que não choram as criaturas sem entendimento que vivem no perpétuo deleite de não possuir razão? Se de dor, por que insiste em sorrir o sol todas as manhãs ao contemplar tanta opressão?
Até quando choraremos sem entender a razão dessas lágrimas que nos desfiguram o semblante? Serão elas o único legado inextinguível que herda nossa prole sem o poder recusar? Será esta a ironia da vida: que por meio da emoção contamos ao mundo o que ostentamos com o maior orgulho - um poço de razão?

(R.R.)

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Caleidoscópio

Crepúsculos rubros
amanhecem a noite estrelada
em nosso céu de cores.

Flores despertam cantares
de borboletas mudas
num mar de amores.

E a chuva que dança no alto
dissolve a espuma mágica
da qual somos co-autores.

- À co-autora dessa espuma mágica dissolvida no orvalho das manhãs rubras...

(Jéfte Sinistro)

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

As correntezas de seu corpo

Encontram-se rio e mar
nas correntezas de seu corpo.

Seus olhos, translúcidas águas
que resguardam os tesouros
de su'alma sutilmente doce,
inundam meus sonhos
que bordam instantes inebriantes
sob seu acolchoado de seda azul.

Perco-me pelos labirintos
dos horizontes nascentes
de sua pele aveludada
que seduz e dá asas
aos desejos que, sob o azul do céu,
dançam frevo em minh'alma.

Seus lábios, delicados e atraentes,
são brasas vivas do prazer ardente
que consome o fôlego
das minhas idéias inquietas
a buscar as frestas dos suspiros
que desabrocham em seu charme.

Seus versos, água salgada
que escorre pelo corpo,
são mares de ondas bravias,
o beijo frio da brisa
e o silêncio pacífico
das aconchegantes calmarias.

E todos os seus encantos,
que desembocam em meu pensar,
despertam o perfume da certeza
de que no corpo de sua correnteza
encontram-se rio e mar.

Às águas azuis da encantadora Raivane.

(Jéfte Sinistro)

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Roleta Russa

Nu.
A noite é a unica vestimenta que me cabe.
E enquanto a chuva embriaga o silêncio do bairro,
oculta-se, em minh'alma, uma guerra fria.


(Jéfte Sinistro)

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Lembro

Sob a luz da lua
que desponta, deslumbrante,
no negro véu noturno,
ponho-me a recompor,
no mosaico de meus sonhos,
cada uma das cores
que compõem seu sorriso,
cada traço de ternura
que rascunha o seu rosto,
cada um dos manjares
que resguardam os seus olhos...
Vou cantando ao vento
sonetos de estrelas
enquanto dedilho as cordas
dos doces segredos de seu olhar
e planto flores perfumadas
buscando entre as sementes das palavras
encantos que lhe possam agradar...


(Jéfte Sinistro)

130º Salmo

Aqui das profundezas a ti clamo,
ó grande Senhor.
Inclina Teus ouvidos
ao alcance de minhas súplicas,
pois bem sei, Senhor,
que se minhas iniquidades olhares,
certamente morrerei.
Porém Teu é todo o perdão
para que temido Tu sejas.
Meu coração espera em Tuas palavras
e minh'alma anseia por Ti
mais do que os guardas, a aurora.
Porque bem sei, ó Senhor,
que, aos Teus pés,
em Teu dia verei a misericórdia...

- fazendo minhas, as palavras de Davi...

(Jéfte Sinistro)

Libido

Não apropriado para púdicos...
Hoje te queria aqui.
Queria o inflamar de teus olhos
refletindo o meu rosto.
Queria projetar-me em ti
e vice-versa,
até que se esvaísse
o nosso último suspiro
da mais sublime fruição estética.
Desejo-te.
Como nunca antes,
desejo-te.
Desejo tua pele macia
a iluminar meu leito,
teu seio descoberto
a preencher a palma desejosa de minha mão.
Desejo o aguçar de nosso tato
e a liberdade voraz
de nossos corpos a se entrelaçarem,
repetindo o gesto devocional
consumado por nossas almas.
Desejo olhar profundamente em teus olhos
até que todo o brilho traduza
os inflamados desejos de tu'alma sedenta.
Desejo tocar-te com todo o meu cuidado,
como se faz com o cristal frágil,
e acariciar, com as pontas de meus dedos ansiosos,
cada canto de tua suave anatomia.
Desejo percorrer-te o corpo com meus lábios,
beijar-te os mamilos
e deleitar-me na ardência do teu beijo.
Desejo-te por completo.
Desejo acarinhar-te por vezes inúmeras,
bailar minhas mãos, já um tanto trêmulas,
por sobre os manjares
de tuas curvas insinuantes,
perder-me por ti e beijar teu grande lábio,
despudorado, a ansiar um toque de ternura,
até que todo o teu corpo peça, em coro,
a definitiva entrega de amor
da fusão de nós dois.
Desejo-te protagonista
desse puro espetáculo de amor,
de entrega, desejo e carícias,
onde, no ápice de tua atuação,
enquanto enlaço tua cintura
e aperto, com cuidado,
teus quadris contra meu corpo,
sentir-te-ei vibrar e gemer,
no mais profundo gozo,
até teu corpo verter,
como lágrimas de emoção,
o suor da arte de amar...


(Jéfte Sinistro)